Pulitzer Center Update Julho 11, 2025
Enfrentando a 'tarefa deste século': por que a educação ambiental precisa do jornalismo
País:

Nota do editor: Esta atualização foi publicada originalmente em GLOBO.
Integrar o jornalismo ao ensino torna a educação mais conectada com o território, estimulando estudantes a contar suas próprias narrativas
À medida que a COP 30 se aproxima, o papel do jornalismo na educação ambiental merece especial atenção. A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, Marina Silva, apontou a educação ambiental como ferramenta decisiva para enfrentar a crise climática, chamando-a de “tarefa deste século”. Sem ela, a sociedade continuará acreditando que é possível viver em oposição à ecologia.
Na América Latina, 88% das pessoas apoiam políticas climáticas mais rigorosas, segundo pesquisa do Banco Europeu de Investimento (EIB) em 2023. É um sinal claro de que a conscientização sobre as mudanças climáticas cresce de forma expressiva. Mas a conscientização, sem compreensão aprofundada e olhar crítico, corre o risco de levar a uma postura passiva diante do conhecimento, com pessoas apenas consumindo narrativas dominantes.
É aqui que um jornalismo rigoroso, comprovado e baseado em dados pode ter um papel transformador na educação ambiental. A partir de lições aprendidas em iniciativas apoiadas pelo Pulitzer Center, por exemplo, destacam-se quatro razões fundamentais pelas quais o jornalismo de qualidade pode se tornar um parceiro vital da educação ambiental.
Facilitar o pensamento crítico
O jornalismo promove o pensamento crítico, base de uma educação cidadã. Em um cenário de greenwashing e desinformação, ele expõe questões ocultas e oferece ferramentas para que estudantes questionem e se tornem agentes de mudança.
No caso dos mecanismos de crédito de carbono, por exemplo, muitas vezes apresentados como solução simples para a crise climática, o jornalismo investigativo nos leva a analisar como eles refletem políticas climáticas e impactam ecossistemas e vidas humanas — especialmente de quem raramente tem voz nas mesas de negociação. Incentivar os alunos a indagar quais narrativas faltam ou ficam invisíveis, cultiva o hábito da investigação e os orienta a manter um olhar crítico sobre as informações que consomem.
Promover uma aprendizagem baseada no território
A centralização da produção de conhecimento é evidente. Educadores em áreas afetadas lidam com currículos padronizados em nível nacional, enquanto estudantes não têm acesso a recursos educacionais que reflitam os problemas de suas próprias comunidades. Em parcerias com escolas e universidades na África, na América Latina e no Sudeste Asiático, o Pulitzer Center identificou uma lacuna significativa na educação ambiental, sobretudo em territórios diretamente impactados por desmatamento, grilagem e degradação de ecossistemas.
Integrar o jornalismo ao ensino torna a educação mais conectada com o território, estimulando estudantes a contar suas próprias narrativas. No Brasil, nossas parcerias com universidades públicas e escolas da Amazônia fomentam diálogos interdisciplinares e intersetoriais, integrando saberes diversos. O objetivo é estimular os alunos a pensar criticamente e propor soluções inovadoras.
Desenvolver empatia e senso de ação
Muitos jovens, especialmente nas cidades, sentem-se desconectados e impotentes diante da crise ambiental, pois não percebem o impacto de forma tão direta quanto aqueles nos territórios afetados. O jornalismo ajuda a construir essas conexões e mostra que é possível agir.
Em vez de apenas veicular notícias de maneira vertical, reportagens podem ser integradas a programas de ensino, aprofundando a compreensão de alunos e professores e fortalecendo a confiança para enfrentar questões climáticas e pensar em soluções.
Ao ancorar questões ambientais em experiências humanas reais, o jornalismo fortalece o vínculo entre o indivíduo e o planeta, e promove empatia, base para ações transformadoras.
Conectar questões globais a realidades locais
O jornalismo traz perspectivas de diferentes partes do mundo e mostra como decisões globais, como as da COP, afetam o cotidiano local. Ao levá-lo às salas de aula, amplia a consciência dos estudantes e educadores sobre o papel que podem desempenhar na arena internacional. Reportagens bem contextualizadas traduzem o que parece técnico demais e humanizam os desafios climáticos. No Pulitzer Center, vemos de perto como a união entre jornalismo e engajamento público fortalece a educação ambiental: apoiamos milhares de projetos no mundo todo que promovem reflexão, inspiram ação e lançam luz sobre questões urgentes de nossa época, como a crise do clima.
Dessa forma, o jornalismo é parceiro-chave para cumprir a tarefa do século: educar esta e as próximas gerações sobre o ambiente que as molda e que é moldado por seus pensamentos e ações. O Programa Nacional de Educação Ambiental (PNEA) do governo brasileiro, por exemplo, é louvável, e esperamos ver o jornalismo integrado a esse ecossistema, para que a educação ambiental não apenas informe, mas também capacite estudantes e educadores a agirem como cidadãos críticos, capazes de contar suas histórias e questionar narrativas falsas sempre que as encontrarem.
* Flora Pereira é chefe-executiva de Engajamento do Pulitzer Center, responsável pela Teoria da Mudança e pelos programas de impacto da organização nos Estados Unidos, América Latina, África e Sudeste Asiático. Atuou na CLUA/Diálogo Brasil, onde criou e liderou uma Jornada de Aprendizagem com 21 organizações ambientais, indígenas e de mídia para desenvolver estratégias de impacto e foco em audiência. Trabalhou ainda na ONU Meio Ambiente e na FAO, e fundou a Afreaka, ONG de mídia e educação premiada pelo Ministério da Cultura do Brasil. Flora pesquisa epistemologias feministas do Sul, colonialidade climática e ecofeminismo, e co-coordena o Workshop Ecologia e Sociedade no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.